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Vinte anos depois, ainda volto ao mesmo lugar, estamos evoluindo ou apenas produzindo mais texto?

Escrevi meu primeiro relatório de sustentabilidade há mais de duas décadas.

Lembro exatamente da sala, da mesa improvisada, do silêncio que parecia grande demais para o tamanho do documento.

Era um relatório curto, tímido, cheio de frases que tentavam soar importantes.

A verdade é que quase nada ali podia ser medido, verificado ou auditado.

Mas era o começo e, naquele tempo, parecia suficiente.

Com o passar dos anos, vi o reporte crescer como quem observa uma cidade se expandir.

Novos frameworks surgiram, normas se multiplicaram, consultorias se especializaram, e os relatórios ganharam páginas, gráficos, glossários, anexos, compromissos, narrativas.

 A sustentabilidade virou pauta de conselho, manchete de jornal, KPI de bônus executivo.

E, ainda assim, uma pergunta nunca me deixou em paz:

Será que evoluímos de verdade  ou só aprendemos a escrever mais?

Dias atrás, lendo um working paper da University of Chicago Law School, senti essa pergunta voltar com a força de um déjà-vu.

Os pesquisadores analisaram 15 mil relatórios publicados entre 1998 e 2023.

E o que encontraram é quase irônico: quanto mais sofisticados ficamos, mais genéricos nos tornamos.

Relatórios mais longos, mas menos específicos.

Mais frameworks, mas pouca substância.

Mais narrativa, mas menos evidência.

É como se tivéssemos aprendido a construir prédios cada vez mais altos… mas esquecêssemos de reforçar as fundações.

O problema não está no PDF. Está no que antecede o PDF.

Transparência não nasce no texto. Nasce no dado.

No dado primário, rastreável, granular.

No método claro, na fonte explícita, no responsável identificado.

 No processo que funciona, no controle que opera, na decisão que deixa rastro.

Sem isso, qualquer relatório  por mais bonito, por mais alinhado a GRI, SASB ou TCFD  vira apenas um exercício de escrita corporativa.

Os autores do estudo são diretos: dados legíveis por máquina, não PDFs intermináveis.

Rigor de dado financeiro aplicado ao dado ESG.

E, quando penso nisso, volto àquela primeira mesa improvisada.

Talvez a pergunta nunca tenha sido sobre escrever melhor.

Talvez sempre tenha sido sobre medir melhor.

Porque, no fim, o relatório cresce em páginas… mas só cresce em valor quando sustenta decisões reais.

Dados melhores → decisões melhores → transparência real.

O resto é ruído.

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