A elaboração de um PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) que realmente agregue valor à organização e atenda às expectativas dos órgãos ambientais precisa ir além de uma simples identificação de perigos. É necessário demonstrar que a empresa conhece seus riscos críticos, possui barreiras preventivas e mitigadoras eficazes e monitora continuamente a sua integridade operacional.
É nesse contexto que a metodologia BOW TIE (Gravata Borboleta) se torna uma ferramenta extremamente poderosa.
Na minha trajetória profissional, acompanho a evolução da gestão de riscos desde os anos 1980, quando comecei minha atuação em operações industriais de alta complexidade, incluindo o setor de óleo e gás no Mar do Norte. Após o acidente da Piper Alpha disaster, a indústria passou por uma profunda transformação na forma de compreender riscos maiores (major risks). A grande mudança foi deixar de olhar apenas para causas e consequências e começar a gerenciar barreiras que impedem que um evento indesejado aconteça.
O BOW TIE nasceu e evoluiu nesse ambiente de busca por uma gestão de riscos mais robusta.
Como o BOW TIE contribui para um PGR mais eficiente?
O método organiza o risco em uma visão clara:
Ameaças → Evento Topo → Consequências
No centro está o evento crítico, por exemplo:
- Vazamento de combustível;
- Derramamento de produto químico;
- Incêndio ou explosão;
- Contaminação do solo e água;
- Falha em sistemas de contenção.
Do lado esquerdo estão as ameaças, que podem provocar o evento:
- Falha operacional;
- Erro humano;
- Falha de manutenção;
- Corrosão de equipamentos;
- Procedimentos inadequados;
- Falhas de inspeção.
Entre as ameaças e o evento topo são posicionadas as barreiras preventivas:
✅ Sistemas de inspeção e manutenção;
✅ Treinamentos e competência operacional;
✅ Procedimentos operacionais;
✅ Sistemas de detecção;
✅ Proteções físicas e de engenharia;
✅ Gestão de mudanças.
Do lado direito são avaliadas as consequências e suas barreiras mitigadoras:
✅ Planos de emergência;
✅ Sistemas de combate a incêndio;
✅ Kits e equipamentos de resposta ambiental;
✅ Contenção secundária;
✅ Comunicação com órgãos competentes;
✅ Preparação das equipes de resposta.
Por que os órgãos ambientais valorizam essa abordagem?
Um PGR estruturado com BOW TIE demonstra que a organização:
- Não apenas identificou seus riscos, mas entende como eles podem ocorrer;
- Possui controles definidos para evitar acidentes;
- Avalia se suas barreiras são realmente eficazes;
- Define responsáveis pela manutenção dessas barreiras;
- Cria indicadores de desempenho preventivos (leading indicators).
Isso transforma o PGR de um documento burocrático em uma ferramenta de gestão empresarial.
Aplicação prática em empreendimentos de alto risco
Em setores como:
- Postos de combustíveis;
- TRR (Transportador-Revendedor-Retalhista);
- Transporte de produtos perigosos;
- Usinas sucroenergéticas;
- Indústrias químicas;
- Terminais de armazenamento;
- Operações de óleo e gás;
o BOW TIE permite conectar a operação diária com os requisitos ambientais, de segurança e sustentabilidade.
Do cumprimento legal para a excelência operacional
Hoje, os órgãos ambientais e demais stakeholders esperam cada vez mais uma postura preventiva das empresas. Não basta responder ao acidente; é necessário demonstrar capacidade de antecipar, controlar e reduzir riscos.
A experiência mostra que organizações maduras não gerenciam riscos apenas através de documentos: elas gerenciam riscos através de barreiras vivas, monitoradas e continuamente melhoradas.
O BOW TIE é uma ponte entre a engenharia de segurança, a gestão ambiental, o ESG e a continuidade dos negócios.
Um PGR moderno não deve apenas perguntar: “quais são os riscos?”
Deve responder: “quais barreiras garantem que esses riscos permaneçam sob controle?”
Essa é a essência de uma verdadeira gestão de riscos.
Estamos juntos
+ 40 anos consolidados, de vida profissional, exercendo vários cargos até alcançar a Vice-presidência em ESG / QSMS-RS & Sustentabilidade para fundos de investimentos, atuação nas áreas de Óleo & Gás, Energia, Portos e Mineração em mais de 15 países da América Latina, África Ásia e Oriente Médio.
Autor de artigos, mentor, professor e palestrante sobre ESG / Sustentabilidade & QSMS-RS.
Post-doc. /Aberdeen, UK, MBA/Harvard U., PhD/UCLA, MSc/Texas A&M, BSc/ Maryland U., BSc /UFRJ