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Usina de etanol de milho: Na gestão de riscos utilizando o BOW TIE, as barreiras são confiáveis e os cenários estão previstos?

Uma usina de etanol de milho depende de processos interligados: recebimento e armazenagem do grão, moagem, produção e destilação do etanol, geração de vapor, armazenamento de produtos e expedição.

Em cada etapa, há riscos que podem afetar pessoas, meio ambiente, continuidade operacional e resultados do negócio.

Na minha trajetória, tive a oportunidade de atuar na gestão de riscos como gerente sênior responsável pela área nos Estados Unidos, no estado de Idaho.

Essa experiência reforçou para mim que a gestão de riscos precisa estar ligada às decisões e à operação diária.

Mapear riscos é apenas o começo: é necessário definir controles, atribuir responsabilidades e verificar se as barreiras realmente funcionam.

Como o Bow Tie pode ajudar

O Bow Tie parte de um evento central e organiza as ameaças que podem provocá-lo, as barreiras preventivas, as consequências possíveis e as barreiras mitigadoras.

Exemplo: incêndio ou explosão em área de processo

Considere como evento central a perda de contenção de etanol ou de vapores inflamáveis, seguida de ignição.

Entre as ameaças podem estar vazamentos em tubulações ou equipamentos, falhas em selos e conexões, manutenção inadequada, fontes de ignição não controladas, falhas de instrumentação ou erros durante operações de transferência.

As barreiras preventivas podem incluir projeto e inspeção adequados dos equipamentos, manutenção baseada em criticidade, detecção de vazamentos e vapores, aterramento e equipotencialização, controle de fontes de ignição, procedimentos de transferência e treinamento das equipes.

Se o evento ocorrer, as consequências podem envolver incêndio, explosão, lesões, danos a equipamentos, impactos ambientais e interrupção da produção.

 Entre as barreiras mitigadoras podem estar sistemas de isolamento e parada de emergência, contenção e drenagem adequadas, sistemas de combate a incêndio, planos de resposta a emergências e recursos de resgate.

Este é um exemplo para orientar a análise.

Os cenários de cada unidade precisam ser definidos considerando seus processos, substâncias, equipamentos, histórico de incidentes e requisitos aplicáveis.

As barreiras são confiáveis?

A presença de uma barreira em um procedimento ou desenho de processo não comprova que ela seja confiável.

É preciso verificar se ela:

  • Atua sobre uma ameaça ou consequência claramente identificada.
  • Tem responsável definido e recursos para funcionar.
  • É suficientemente independente de outras barreiras.
  • É inspecionada, testada e mantida na frequência adequada.
  • Tem critérios de desempenho que podem ser verificados.
  • Continua eficaz durante partidas, paradas, manutenção e situações anormais.
  • É compreendida pelas equipes que precisam acioná-la.

Barreiras críticas também precisam de acompanhamento. Indicadores como testes realizados no prazo, falhas encontradas, tempo de correção e disponibilidade dos sistemas de proteção ajudam a mostrar se os controles estão funcionando.

Quando uma barreira fica indisponível, a organização precisa avaliar o risco temporário e definir medidas compensatórias.

Todos os cenários estão previstos?

Nenhuma análise consegue antecipar todos os cenários possíveis.

O objetivo é identificar os cenários relevantes, avaliar as incertezas e preparar a unidade para reconhecer mudanças e responder ao que não foi previsto.

Conforme as características da usina, a análise pode considerar incêndios e explosões de poeira em áreas de recebimento, secagem, moagem e armazenagem; falhas de utilidades, como energia, vapor e água; perda de contenção; exposição a produtos químicos; falhas em equipamentos críticos; eventos climáticos; interrupções logísticas; e dependência de fornecedores estratégicos.

Também é importante avaliar combinações de falhas.

Uma perda de energia durante determinada condição operacional, por exemplo, pode afetar várias proteções ao mesmo tempo.

 Mudanças de processo, expansão da capacidade, novos fornecedores ou alterações na operação podem criar cenários que não estavam presentes na análise inicial.

Por isso, o Bow Tie deve ser revisto após incidentes e quase acidentes, mudanças relevantes, alterações em equipamentos ou procedimentos e identificação de novas ameaças.

SIMULADO:

Barreiras críticas: quando foi o último teste?

Na gestão de riscos de uma usina de etanol de milho, identificar uma barreira no Bow Tie é apenas o começo.

 A pergunta seguinte é: quais evidências demonstram que ela funcionará quando for necessária?

Uma barreira instalada não é, por si só, uma barreira comprovadamente eficaz.

 Testes precisam verificar sua função de proteção, com critérios de aceitação definidos e registros que permitam acompanhar os resultados.

Antes de considerar uma barreira disponível, vale perguntar:

  • O teste verifica a função de proteção esperada, e não apenas se o equipamento está ligado?
  • Os critérios de aprovação e a frequência dos testes estão definidos conforme a criticidade, os requisitos aplicáveis e as condições de operação?
  • O resultado foi registrado, incluindo falhas, limitações e ações corretivas?
  • Há responsável e prazo para corrigir desvios, com verificação após a correção?
  • Quando a barreira fica indisponível, o risco temporário é avaliado e as medidas compensatórias são definidas?

Testes também exigem planejamento: devem ser conduzidos por pessoal qualificado, conforme procedimentos aprovados, sem comprometer a segurança da operação.

Indicadores como testes no prazo, falhas identificadas, tempo de correção e disponibilidade das proteções ajudam a acompanhar a saúde das barreiras. O Bow Tie ganha valor quando essas evidências orientam decisões — não quando fica apenas no papel.

Exemplo hipotético: desvio identificado em um teste

Durante um teste programado de um sistema de detecção de vapores inflamáveis, realizado por equipe qualificada conforme procedimento aprovado, um detector não atende ao critério de resposta estabelecido.

A equipe registra o desvio e comunica a indisponibilidade da função de proteção afetada.

Antes de prosseguir com a operação, os responsáveis avaliam o risco temporário e definem medidas compensatórias, limites operacionais ou suspensão da atividade, conforme os critérios de segurança da unidade.

A ação corretiva recebe responsável, prazo e registro para acompanhamento.

Após a manutenção, a equipe repete o teste e verifica o atendimento aos critérios de aceitação e a restauração da função de proteção.

 O desvio só é encerrado com evidências registradas.

A causa da falha é analisada para avaliar a necessidade de revisar a manutenção, a frequência dos testes e outras barreiras semelhantes.

Exercícios e simulados ajudam a verificar se os planos e as barreiras funcionam na prática.

A ISO 31000 oferece uma estrutura para integrar a análise à gestão da organização: identificar, avaliar, tratar, monitorar e revisar os riscos.

O Bow Tie ajuda a visualizar como ameaças, eventos, consequências e barreiras se relacionam.

A pergunta essencial não é apenas “temos barreiras?”, mas também: “sabemos se elas funcionam, quem responde por elas e o que faremos quando falharem?”

Minha experiência em gestão de riscos nos Estados Unidos, no estado de Idaho, reforçou a importância de tratar essas perguntas como parte contínua da gestão. Uma análise robusta não promete prever tudo.

Ela ajuda a reduzir riscos conhecidos, perceber mudanças e preparar a organização para responder ao inesperado

Manutenção executada não é comprovação de proteção restabelecida.

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