Décadas analisando riscos críticos no mundo e agora no Brasil.
Ao longo da minha trajetória internacional, atuei na análise e gestão de riscos na indústria do cimento, aplicando a metodologia Bow Tie (Diagrama de Gravata Borboleta) como ferramenta central de Process Safety Management.
Não como um exercício documental, mas como instrumento vivo de decisão: transformar cenários de risco em uma representação estruturada das causas (threats), do evento topo (top event), das barreiras preventivas e mitigadoras, das consequências e dos fatores de escalonamento (escalation factors) que podem degradar uma barreira no momento crítico.
Hoje, essa experiência continua no Brasil, por meio da Roberto Roche & Associados, apoiando empresas na identificação de riscos críticos e, principalmente, na avaliação da efetividade real de suas barreiras o que a literatura de segurança de processos chama de “barrier health” ou integridade de barreira.
Por que o Bow Tie é subutilizado quando é feito apenas como diagrama
Um erro recorrente é tratar o Bow Tie como produto final de um workshop de HAZID ou HAZOP.
Na prática, ele deveria ser o ponto de partida de um sistema de gestão de barreiras críticas. Isso significa:
→ Classificar cada barreira quanto à sua natureza (hardware, humana/procedimental ou sistema de gestão);
→ Definir critérios de desempenho para cada barreira (disponibilidade, confiabilidade, tempo de resposta);
→ Associar Performance Standards e indicadores de liderança (leading indicators) que permitam monitorar a saúde da barreira antes que ela falhe;
→ Auditar periodicamente se a barreira ainda é independente, funcional e verificável os três critérios clássicos de uma barreira eficaz.
Sem esse desdobramento, o Bow Tie vira arte decorativa em uma sala de reunião.
Com esse desdobramento, ele se torna a espinha dorsal de um sistema de Gestão de Segurança de Processos (PSM) e de Barreiras Críticas.
A aplicação em diferentes contextos operacionais
Ao longo dos anos, tive a oportunidade de aplicar essa metodologia em realidades industriais e culturas de segurança bastante distintas:
🇦🇴 Angola
Em operações com restrições significativas de infraestrutura logística e disponibilidade de sobressalentes, o desafio técnico não era identificar as barreiras, mas hierarquizá-las corretamente.
Utilizamos o Bow Tie para diferenciar barreiras críticas (cuja falha leva diretamente ao evento topo) de barreiras degradadas, permitindo direcionar investimento de manutenção e inspeção para o que realmente reduzia risco, em vez de dispersar recursos escassos de forma uniforme.
🇿🇦 África do Sul
Em um ambiente com maturidade elevada em gestão de riscos e forte cultura regulatória (influenciada pelo histórico da indústria de mineração), o valor não estava em construir novos diagramas, mas em auditar a efetividade contínua de barreiras já classificadas como críticas.
Aplicamos verificação de campo (walk-downs), comparando o Performance Standard documentado com a condição real do ativo expondo gaps entre “barreira no papel” e “barreira operacional”.
🇸🇦 Arábia Saudita
Em uma operação de grande escala e multicultural, com equipes de diferentes nacionalidades e níveis de formação técnica, o Bow Tie funcionou como linguagem visual comum.
Reduziu ambiguidades de interpretação em procedimentos críticos e facilitou o alinhamento entre engenharia, operação e manutenção sobre qual barreira era responsabilidade de qual função um ponto frequentemente negligenciado, mas essencial para accountability de barreira.
Três países, três culturas operacionais, três configurações de maturidade em gestão de risco, mas uma mesma pergunta estrutural, válida em qualquer geografia:
As barreiras que protegem pessoas, ativos e continuidade operacional realmente funcionam no momento em que são exigidas?
Porque isso importa especificamente na indústria do cimento.
A indústria do cimento reúne, em uma única planta, praticamente todo o espectro de perigos de processo:
Fornos rotativos operando em altíssima temperatura, moagem e manuseio de material particulado combustível, silos sujeitos a explosão de poeira, sistemas pneumáticos e mecânicos de transporte, trabalho em altura em estruturas de pré-aquecimento, e exposição a atmosferas com potencial de deficiência de oxigênio.
Cada um desses perigos tem, tipicamente, múltiplos cenários de evento topo e cada cenário depende de um conjunto específico de barreiras que raramente são avaliadas de forma integrada.
Por onde começar, na prática
Não é pelo diagrama. A sequência tecnicamente correta é:
- Mapear o processo e identificar os perigos reais (não genéricos) da planta;
- Definir os eventos topo relevantes para cada perigo;
- Construir o Bow Tie identificando ameaças, barreiras preventivas, consequências e barreiras mitigadoras;
- Classificar as barreiras críticas e atribuir Performance Standards;
- Verificar em campo se essas barreiras existem, funcionam e são mantidas como projetadas.
Só depois desse ciclo o diagrama deixa de ser um retrato estático e passa a ser uma ferramenta de gestão viva.
Vamos conversar sobre como estruturar essa avaliação na sua operação.
Estamos juntos