A alta taxa de acidentes graves e fatais no campo é um desafio crítico para o agronegócio, especialmente nas usinas sucroenergéticas.
Diversos fatores contribuem para esse cenário, como operações complexas, circulação de máquinas e veículos, trabalho em altura, manutenção, transporte e exposição a condições ambientais adversas.
No entanto, um planejamento consistente e a implantação de uma cultura de gestão de riscos podem mitigar significativamente os perigos presentes nas operações diárias.
Antecipar riscos, definir controles eficazes, capacitar as equipes e acompanhar continuamente as atividades são medidas essenciais para proteger vidas, fortalecer a segurança operacional e assegurar a sustentabilidade do negócio.
Tenho décadas de experiência na realização desse tipo de trabalho, envolvendo diagnóstico das condições operacionais, identificação e avaliação de riscos, definição de controles e acompanhamento da implantação junto às equipes.
Desde 2020, quando retornei definitivamente ao Brasil, venho aplicando em diversas Usinas no Centro Oeste e na região de São Paulo.
Como resultado, contribuo para o fortalecimento da cultura de prevenção, maior conformidade legal e redução da exposição dos trabalhadores aos riscos nas operações.
Mas esse tipo de trabalho vai muito além de elaborar um PGR ou cumprir exigências legais.
Em uma usina sucroenergética, a gestão de riscos precisa ser integrada à operação, porque as atividades envolvem uma combinação de riscos de alta severidade e grande complexidade.
Os principais desafios normalmente encontrados incluem:
- Operação de máquinas agrícolas (colhedoras, tratores, transbordos e caminhões).
- Manutenção industrial com atividades de bloqueio e etiquetagem (LOTO).
- Trabalho em altura e em espaços confinados.
- Movimentação de cargas e equipamentos pesados.
- Riscos de incêndio e explosão associados ao etanol, biomassa e poeiras combustíveis.
- Exposição a calor, ruído, agentes químicos e biológicos.
- Trânsito interno intenso entre veículos leves, pesados e pedestres.
- Operações que funcionam 24 horas durante a safra, aumentando os riscos relacionados à fadiga.
Minha abordagem de implantação
Com base em décadas de atuação internacional e na experiência aplicada no Brasil desde 2020, normalmente estruturo o projeto em etapas.
1. Diagnóstico da maturidade
Não avalio apenas documentos. Verifico como a gestão realmente acontece no campo e na indústria.
São analisados aspectos como:
- liderança;
- comportamento seguro;
- competências;
- cumprimento dos procedimentos;
- comunicação de riscos;
- investigação de incidentes;
- indicadores preventivos.
2. Identificação e avaliação dos riscos
São realizadas inspeções detalhadas nas operações para identificar:
- perigos existentes;
- frequência de exposição;
- gravidade das possíveis consequências;
- eficácia dos controles existentes.
Dependendo da criticidade, utilizam-se metodologias como:
- APR;
- HAZOP;
- Bow Tie;
- matriz de riscos conforme a ISO 31000;
- análises específicas previstas na NR-01 e demais NRs.
3. Priorização
Nem todos os riscos possuem o mesmo impacto.
Um erro comum é tratar centenas de riscos da mesma forma.
A gestão eficiente concentra recursos naquilo que realmente pode provocar:
- fatalidades;
- incapacidades permanentes;
- grandes perdas operacionais;
- impactos ambientais;
- paralisação da produção.
4. Implantação dos controles
Os controles seguem a hierarquia de controle de riscos:
- eliminação;
- substituição;
- controles de engenharia;
- controles administrativos;
- EPIs.
Sempre priorizando medidas que reduzam o risco na origem.
5. Desenvolvimento da cultura de risco
Esta costuma ser a etapa mais importante.
Uma usina pode possuir excelentes procedimentos, mas, se supervisores e operadores não incorporarem a percepção de risco ao dia a dia, os acidentes continuarão ocorrendo.
O foco passa a ser:
- liderança em segurança;
- observação comportamental;
- diálogo diário de segurança;
- participação dos trabalhadores;
- aprendizado com incidentes e quase acidentes;
- indicadores proativos em vez de apenas estatísticas de acidentes.
Resultados esperados
Quando a gestão é implementada corretamente, normalmente observam-se:
- redução da exposição aos riscos críticos;
- melhoria da conformidade com as NRs;
- fortalecimento da cultura de prevenção;
- maior confiabilidade operacional;
- redução de perdas de produção;
- diminuição de custos decorrentes de acidentes;
- melhor preparação para auditorias e exigências de clientes;
- aumento da maturidade em gestão de riscos.
Um ponto crítico para o agronegócio
O setor sucroenergético continua apresentando índices preocupantes de acidentes graves e fatais.
Diversos fatores contribuem para esse cenário: sazonalidade da safra, pressão por produtividade, jornadas prolongadas, elevada mecanização e operações simultâneas no campo e na indústria.
Entretanto, a experiência mostra que uma parcela significativa desses eventos pode ser evitada quando a organização deixa de atuar apenas de forma reativa e passa a adotar uma cultura estruturada de gestão de riscos. Isso significa planejar antes da execução, identificar riscos críticos, implantar barreiras eficazes, desenvolver lideranças e monitorar continuamente os controles.
A gestão de riscos deixa de ser um requisito documental e passa a ser uma ferramenta estratégica para proteger vidas, assegurar a continuidade das operações e aumentar a sustentabilidade do negócio.
Essa visão está alinhada às melhores práticas internacionais, como a ISO 31000, a ISO 45001, os princípios das High Reliability Organizations (HRO) e metodologias como o Bow Tie, que ajudam a compreender como eventos críticos podem ser prevenidos por meio de barreiras de controle eficazes.
Esse tema também renderia um excelente artigo para o LinkedIn com o título:
“Por que a gestão de riscos pode salvar vidas e aumentar a produtividade nas usinas sucroenergéticas”
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