ISO 31000 e Bow Tie: ferramentas que não podem ficar de fora
Era noite quando meu celular tocou.
Do outro lado da linha, o diretor de uma indústria trouxe uma notícia que ninguém gostaria de receber: um fornecedor estratégico havia interrompido suas operações durante o fim de semana devido a um alagamento em suas instalações.
Sem aviso, sem plano alternativo e sem tempo para reagir.
Nas horas seguintes, a empresa entrou em uma corrida para dimensionar o problema: quem mais dependia daquele fornecedor? Quanto a interrupção custaria? O que deveria ser feito primeiro?
Não faltaram competência nem esforço. Faltou um processo estruturado.
Essa experiência — com nomes e detalhes diferentes — me levou a revisitar dois recursos essenciais para uma gestão de riscos eficaz: a ISO 31000 e o Bow Tie.
A ISO 31000 oferece diretrizes para lidar com a incerteza. Ela orienta a identificação e a análise dos riscos, a avaliação de suas consequências, a definição de prioridades e o tratamento necessário para reduzir a probabilidade de eventos indesejados ou seus impactos.
O Bow Tie complementa essa abordagem ao representar visualmente um evento de risco, suas causas, suas consequências e as barreiras de controle. De um lado, ficam as ameaças e os controles preventivos; no centro, o evento crítico; do outro, as consequências possíveis e os controles mitigadores.
Essa visão ajuda a responder perguntas práticas: o que pode levar ao evento? Que barreiras podem evitá-lo? Se ele acontecer, o que pode limitar os danos?
No caso do fornecedor alagado, um Bow Tie poderia partir do evento central: interrupção do fornecimento estratégico. Entre as ameaças, poderiam estar alagamentos, incêndios, falhas de energia ou dependência de uma única unidade produtiva. Entre os controles preventivos, poderiam aparecer avaliações de continuidade do fornecedor, análise de sua localização e identificação de alternativas. Do lado das consequências, poderiam estar a paralisação da produção, atrasos nas entregas e perdas financeiras. Entre os controles mitigadores, entrariam estoques de segurança, fornecedores alternativos e planos de continuidade testados.
A ISO 31000 e o Bow Tie se reforçam: uma ajuda a estruturar o processo de gestão de riscos; o outro torna visíveis as relações entre causas, evento, consequências e controles. Ambos devem estar conectados aos objetivos e às decisões da organização.
Se a indústria tivesse aplicado esse processo antecipadamente:
- Os riscos de fornecimento estariam mapeados.
- Os cenários relevantes teriam sido avaliados.
- As alternativas e os planos de contingência estariam preparados.
- Os critérios para uma resposta rápida estariam definidos.
- O plano de gestão de crises e o de continuidade de negócios estariam prontos para ser acionados.
A crise ainda poderia ocorrer, mas a resposta seria mais rápida e seus impactos, menos severos. Gerir riscos não significa prever o futuro com exatidão. Significa preparar a organização para responder quando algo inesperado acontecer.
Outro exemplo: dependência de um fornecedor único
Imagine uma empresa que depende de um único fornecedor para um componente essencial à sua produção.
O fornecimento é interrompido por uma falha operacional na fábrica do fornecedor, e a empresa descobre que não há estoque suficiente nem uma alternativa previamente qualificada.
O evento central no Bow Tie seria a indisponibilidade do componente crítico.
Entre as ameaças estariam falhas de equipamentos, falta de matéria-prima, problemas logísticos ou dificuldades financeiras do fornecedor.
Os controles preventivos poderiam incluir o acompanhamento da saúde operacional e financeira do fornecedor, auditorias, identificação de subfornecedores críticos e avaliação de riscos de concentração.
Se a interrupção acontecesse, as consequências poderiam incluir paralisação da produção, atrasos nas entregas, custos adicionais e perda de clientes.
Os controles mitigadores poderiam envolver estoques dimensionados conforme o risco, fornecedores alternativos já qualificados, acordos de contingência e planos de continuidade testados.
Esse exercício também ajuda a definir responsabilidades: quem acompanha os sinais de alerta?
Quem decide quando acionar uma alternativa?
Quanto estoque é necessário?
Como serão priorizados os clientes e produtos durante a interrupção?
O valor do Bow Tie está em ajudar a equipe a verificar se as barreiras existem, se são adequadas e se funcionam na prática.
A ISO 31000 contribui para que essa análise faça parte de um processo contínuo: identificar, avaliar, tratar, acompanhar e revisar os riscos.
Ao longo de + 40 anos de experiência no mundo corporativo internacional e, agora, no Brasil, tenho observado como processos estruturados ajudam organizações a tomar decisões melhores diante da incerteza.
As ferramentas são importantes, mas seu efeito depende de como são incorporadas à rotina, à cultura e às responsabilidades de cada área.
A diferença entre uma organização que sofre mais e outra que consegue se recuperar com maior rapidez muitas vezes começa antes do evento: em riscos bem analisados, controles conhecidos e planos que foram testados.
A ISO 31000 orienta o processo de gestão de riscos.
O Bow Tie ajuda a visualizar ameaças, barreiras e consequências. Juntos, podem apoiar decisões mais preparadas e proteger pessoas, operações e objetivos.
Estamos juntos