Ao longo de mais de quatro décadas atuando em projetos de infraestrutura, energia, mineração e óleo & gás na África, aprendi que grandes acidentes raramente acontecem por um único erro.
Eles surgem quando diversas barreiras falham simultaneamente.
Foi essa experiência internacional que consolidou minha utilização da metodologia BOW TIE como uma das principais ferramentas para gerenciamento de riscos críticos.
Desde meu retorno definitivo ao Brasil, em 2020, tenho aplicado essa mesma abordagem em projetos de energia renovável, ajudando empresas a prevenir perdas antes que elas aconteçam.
Case 1 – Antes da implantação: o risco mais barato é aquele que nunca acontece
Durante a fase de planejamento de um parque solar, a equipe técnica concentrava seus esforços na engenharia, cronograma e custos da implantação.
Antes do início das obras, conduzimos uma análise de riscos utilizando a metodologia BOW TIE.
O evento crítico definido foi:
Perda da integridade da instalação durante a construção.
A partir desse evento foram identificadas diversas ameaças que normalmente passam despercebidas durante o planejamento:
- terreno com drenagem inadequada;
- movimentação simultânea de equipamentos pesados;
- trabalhos em altura durante a montagem das estruturas;
- interfaces entre diversas empresas contratadas;
- ausência de critérios para bloqueio e energização;
- ventos fortes durante o içamento dos módulos;
- falhas de logística na armazenagem dos painéis e inversores.
Para cada ameaça foram estabelecidas barreiras preventivas, responsáveis definidos, indicadores de desempenho e critérios de verificação.
O resultado foi muito além da segurança.
A metodologia reduziu retrabalhos, evitou atrasos, melhorou o planejamento executivo e aumentou a confiabilidade da implantação.
Em outras palavras, o BOW TIE deixou de ser uma ferramenta de segurança para se tornar uma ferramenta de gestão do investimento.
Case 2 – Após a entrada em operação: quando produzir energia depende da gestão das barreiras
Meses após o início da operação, uma planta fotovoltaica apresentava pequenas falhas recorrentes em inversores.
Individualmente, cada ocorrência parecia apenas uma manutenção corretiva.
Entretanto, utilizando novamente a metodologia BOW TIE, identificamos que essas falhas faziam parte de um mesmo cenário de risco.
O evento crítico passou a ser:
Perda da disponibilidade operacional da usina.
Foram mapeadas ameaças como:
- degradação acelerada de componentes;
- manutenção baseada apenas em calendário;
- inspeções termográficas insuficientes;
- surtos elétricos;
- descargas atmosféricas;
- acesso inadequado às áreas energizadas;
- incêndios em equipamentos elétricos;
- eventos climáticos extremos.
As barreiras preventivas passaram a incluir manutenção preditiva, monitoramento contínuo, inspeções por termografia e drones, revisão dos planos de resposta a emergências e indicadores de desempenho das barreiras críticas.
As barreiras mitigadoras garantiram respostas rápidas para reduzir indisponibilidade, proteger pessoas e preservar ativos.
O resultado foi maior confiabilidade operacional, redução de paradas não programadas e aumento da disponibilidade energética da planta.
Mais importante que corrigir falhas foi impedir que elas evoluíssem para eventos críticos.
Elas dependem de uma gestão estruturada de riscos.
Porque, no final, uma usina solar não entrega apenas megawatts.
Ela entrega valor quando seus riscos críticos são conhecidos, monitorados e controlados por barreiras eficazes.
“A melhor energia é aquela produzida por uma operação segura, resiliente e preparada para evitar que os riscos se transformem em perdas.”
Estamos juntos