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O Problema do Palestrante e consultor especialista de Palco!

Há alguns anos comecei a perceber um fenômeno que, infelizmente, parece cada vez mais comum.

Consultores, especialistas e palestrantes que falam com enorme autoridade sobre temas complexos, mas que nunca passaram pelo “trecho”.

  • Nunca trabalharam no chão de fábrica.
  • Nunca enfrentaram uma emergência ambiental às três da manhã.
  • Nunca precisaram olhar nos olhos de uma equipe depois de um acidente grave.

É curioso.

Alguns começaram na profissão há poucos anos e já se apresentam como referências absolutas.

Existe até uma máxima antiga que sempre me fez sorrir:

“O segredo do palestrante guru é terminar a palestra e sair correndo antes que alguém faça perguntas.”

Na época em que comecei a participar de congressos internacionais, há mais de quatro décadas, já observava isso.

Conheci autores consagrados na área de saúde e segurança que escreviam excelentes livros, mas jamais haviam administrado uma obra, uma plataforma, uma indústria ou um grande canteiro de obras.

Hoje vejo o mesmo acontecer em ESG e Sustentabilidade.

Confesso que, muitas vezes, me divirto.

O problema começa quando uma alta direção compra esse discurso como verdade absoluta.

É aí que mora o perigo.

Porque quem acaba tentando implantar essas teorias são profissionais experientes, gestores e supervisores que conhecem a realidade operacional. E eles rapidamente percebem quando a proposta simplesmente não funciona.

A teoria encontra a realidade

Em mais de 40 anos de carreira vivi situações que jamais desejaria a ninguém.

  • Fatalidades.
  • Derramamentos de óleo em operações de perfuração.
  • Vazamentos de gases.
  • Produtos tóxicos atingindo rios.
  • Grandes crises.
  • Investigações.
  • Comunidades impactadas.
  • Decisões difíceis tomadas em poucos minutos.

Essas experiências não aparecem em um currículo bonito.

Também não cabem em um slide.

Mas são elas que ensinam.

Talvez por isso eu só tenha me sentido realmente confortável para dar cursos e palestras depois de décadas de atuação prática.

Fiz uma promessa para mim mesmo:

Nunca falar sobre um assunto que eu não tenha vivido na linha de frente.

Essa continua sendo minha principal regra.

O problema do “especialista de palco”

Normalmente ele apresenta alguns sinais bastante claros.

  • Nunca viveu a realidade operacional que ensina.
  • Mostra soluções perfeitas no PowerPoint que desmoronam quando chegam ao campo.
  • Usa excesso de jargões para parecer sofisticado.
  • Responde perguntas fáceis com discursos longos.
  • Evita falar de fracassos pessoais porque simplesmente não teve experiências suficientes para aprendê-los.

Quem realmente já esteve no trecho costuma fazer exatamente o contrário.

  • Explica de maneira simples.
  • Conta os próprios erros.
  • Mostra cicatrizes.
  • Reconhece limitações.
  • E, principalmente, sabe dizer:
  • “Não sei.”

Duas cenas que nunca esqueci

Sem citar nomes, lembro de dois episódios que ilustram bem essa diferença.

Caso 1 – O “guru” do ESG

A palestra era impecável.

Slides modernos.

Palavras como dupla materialidade, criação de valor sustentável, stakeholder engagement, taxonomia, métricas, indicadores e dezenas de expressões em inglês.

Tudo parecia perfeito.

Até que alguém da plateia perguntou:

“Como você conduziria uma due diligence ESG em uma empresa com um passivo ambiental oculto e forte conflito com comunidades?”

O palestrante respondeu voltando para um slide sobre propósito corporativo.

Veio a segunda pergunta:

“E como priorizar riscos quando há limitações operacionais e financeiras?”

Ele respondeu falando sobre “mindset”.

A terceira pergunta foi decisiva:

“Você já liderou alguma due diligence desse tipo?”

Silêncio.

Depois de alguns segundos, respondeu:

“Eu acompanhei alguns projetos…”

Naquele momento, boa parte da plateia percebeu que havia uma enorme distância entre conhecer o vocabulário e conhecer a realidade.

Caso 2 – O especialista em segurança do trabalho

Outro congresso.

Tema: cultura de segurança.

Durante quase uma hora explicou diversos modelos internacionais.

Ao final, um supervisor levantou a mão.

“Quando um trabalhador se recusa a parar uma atividade insegura porque sabe que será pressionado pela produção, o que o senhor faz?”

O palestrante respondeu:

 A liderança deve promover uma cultura positiva.

O supervisor insistiu:

“Certo…, mas amanhã às seis da manhã, na frente da equipe, qual é a primeira providência?”

Novo silêncio.

Mais algumas frases genéricas.

Até que alguém perguntou:

“Quantos anos o senhor trabalhou em operações?”

Resposta:

“Minha experiência sempre foi acadêmica e de consultoria.”

Não havia nenhum problema nisso.

O problema era ter se apresentado como alguém que conhecia profundamente uma realidade que nunca viveu.

A experiência não substitui o estudo.

Mas o estudo também não substitui a experiência.

As organizações precisam dos dois.

  • Precisam de pesquisa.
  • Precisam de ciência.
  • Precisam de universidades.
  • Precisam de bons professores.

Mas também precisam ouvir quem já tomou decisões difíceis quando não havia tempo para consultar um livro.

Porque a diferença entre teoria e prática é simples.

Na teoria tudo funciona.

Na prática existe chuva, pressão, orçamento, pessoas, comunidades, acidentes, imprevistos e consequências.

Estamos juntos

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