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Quando a percepção de risco falha, o acidente deixa de ser uma possibilidade e passa a ser uma questão de tempo.

Ao longo de mais de quatro décadas atuando em diferentes países, culturas, setores industriais e contextos operacionais, vi muitas tecnologias evoluírem, normas serem aprimoradas e sistemas de gestão se tornarem mais robustos.

 No entanto, um fator continua decisivo: a capacidade das pessoas e das organizações de perceberem o risco antes que ele se materialize.

A falta de percepção de risco raramente aparece como uma causa isolada em um relatório de investigação.

Ela costuma estar por trás de decisões pequenas, rotinas normalizadas, desvios tolerados, sinais ignorados e barreiras enfraquecidas.

É nesse espaço silencioso, entre o risco conhecido e o risco realmente compreendido, que muitos acidentes graves começam a ser construídos.

Vamos aos cases que estive envolvido como profissional ;

Case 1: O vazamento que começou como um “pequeno desvio operacional”

Em uma operação industrial de grande porte, localizada em uma região ambientalmente sensível, uma pequena anomalia em um sistema de contenção passou a ser tratada como parte da rotina.

Havia registros de pequenas perdas, manutenção postergada e comentários informais de operadores sobre odor, umidade no solo e dificuldade de acesso a determinados pontos de inspeção.

Nada disso, isoladamente, parecia suficiente para interromper a operação.

O problema é que o risco não estava no evento isolado, mas no conjunto de sinais.

A organização enxergava cada desvio como administrável, mas não percebia o cenário sistêmico: contenção degradada, inspeções incompletas, baixa disciplina operacional e ausência de uma análise integrada das barreiras críticas.

Quando ocorreu a falha maior, o produto atingiu uma área externa, causando impacto ambiental relevante, mobilização emergencial, exposição da empresa perante órgãos reguladores e perda de confiança da comunidade.

A principal lição desse caso foi clara: o acidente ambiental não começou no dia do vazamento.

 Ele começou quando a organização deixou de interpretar corretamente os sinais fracos.

 A percepção de risco falhou porque o foco estava na continuidade da produção, e não na pergunta essencial: “quais barreiras precisam permanecer íntegras para impedir que este desvio se transforme em desastre?”

Case 2: A fatalidade anunciada por uma tarefa considerada simples

Em outra situação, durante uma atividade de manutenção rotineira, uma equipe experiente executava uma tarefa considerada simples e repetitiva.

 O serviço já havia sido realizado muitas vezes, sem incidentes graves. Essa familiaridade criou uma armadilha perigosa: quanto mais comum a tarefa parecia, menor era a atenção dedicada à análise prévia dos riscos.

Naquele dia, algumas condições haviam mudado: o ambiente estava mais congestionado, havia pressão por prazo, a comunicação entre as equipes não estava clara e uma etapa crítica de bloqueio e verificação foi tratada como formalidade.

 Ninguém tinha a intenção de se expor ao perigo, mas a percepção coletiva era de que “sempre foi feito assim”.

 Pouco depois, uma liberação inesperada de energia atingiu um trabalhador, resultando em uma fatalidade.

A investigação mostrou que o problema não era apenas técnico. Havia falhas de planejamento, supervisão, disciplina operacional, comunicação e verificação das barreiras de segurança.

Mas, acima de tudo, havia uma falsa sensação de controle.

 A experiência da equipe, que deveria fortalecer a prevenção, acabou reduzindo a percepção do risco real.

O que esses casos ensinam

Esses dois exemplos reforçam uma verdade que aprendi ao longo da minha trajetória internacional: risco não se gerencia apenas com procedimentos, indicadores e auditorias.

Tudo isso é indispensável, mas não suficiente.

É preciso desenvolver uma cultura capaz de questionar a normalização dos desvios, valorizar sinais fracos, escutar quem está na linha de frente e testar continuamente a efetividade das barreiras críticas.

Percepção de risco é uma competência organizacional.

Ela precisa ser treinada, praticada, medida e liderada.

 Quando líderes e equipes aprendem a enxergar além da tarefa imediata, conseguem antecipar cenários, prevenir perdas e tomar decisões mais responsáveis.

No fim, a diferença entre uma operação segura e um desastre pode estar em uma pergunta simples feita no momento certo: que risco ainda não estamos enxergando?

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