Depois de definir o escopo, o contexto e os critérios de risco socioambiental e ESG, a gestão de riscos entra em uma etapa decisiva:
Aa identificação, tratada no item 6.4.2 da ISO 31000.
O objetivo é encontrar, reconhecer e descrever aquilo que pode ajudar ou comprometer os objetivos da organização.
Isso exige mais do que listar ameaças conhecidas.
É preciso reunir informações pertinentes e atualizadas, ouvir diferentes perspectivas e considerar fatores internos e externos, inclusive aqueles que a organização não controla diretamente.
Essa atenção é especialmente importante diante dos riscos climáticos.
Uma seca prolongada, uma enchente, uma onda de calor ou uma mudança regulatória pode afetar operações, ativos, pessoas, fornecedores, comunidades e resultados financeiros.
E um mesmo evento pode gerar consequências diversas, tangíveis e intangíveis, em diferentes horizontes de tempo.
É nesse contexto que o Bow Tie se torna uma ferramenta valiosa que venho utilizando em meus trabalhos mesmo quando era do mundo corporativo e hoje como consultor
Ele ajuda a organizar a análise de um risco em torno de um evento central, conectando:
- Causas e ameaças que podem levar à sua ocorrência;
- Barreiras preventivas que ajudam a evitar que o evento aconteça;
- Consequências possíveis caso ele ocorra;
- Medidas de mitigação e resposta para reduzir seus impactos.
Dois exemplos ajudam a ilustrar como essa abordagem pode ser aplicada:
1. Santa Catarina — chuvas intensas, enchentes e deslizamentos
Em uma operação industrial, logística ou de infraestrutura, o evento central pode ser a interrupção de uma instalação ou rota crítica por inundação ou deslizamento.
Entre as ameaças estão a chuva extrema, a ocupação de áreas suscetíveis e a dependência de acessos vulneráveis.
As barreiras preventivas podem incluir mapas de risco atualizados, drenagem adequada, monitoramento de alertas, manutenção de taludes e rotas alternativas.
Se o evento ocorrer, planos de emergência, protocolos de comunicação, proteção de equipamentos e estratégias de continuidade ajudam a limitar danos e tempo de interrupção.
2. Nordeste do Brasil — seca prolongada e estresse hídrico
Para uma unidade produtiva, cadeia agroindustrial ou serviço dependente de água, o evento central pode ser a insuficiência de água para manter a operação.
As ameaças incluem períodos prolongados de baixa precipitação, alta demanda e dependência de uma única fonte de abastecimento. Entre as barreiras preventivas estão o monitoramento de disponibilidade hídrica, metas de eficiência, reuso, diversificação de fontes e planos de contingência.
Caso a escassez se agrave, critérios de priorização do consumo, acordos com fornecedores e comunidades e medidas para proteger trabalhadores e a continuidade operacional podem reduzir as consequências.
Esses exemplos são ilustrativos: a análise concreta precisa considerar a localização, o setor, os ativos, os dados climáticos e hidrológicos e as vulnerabilidades de cada organização.
O Bow Tie não prevê o futuro;
Ajuda a tornar visíveis os caminhos que podem levar a um evento e as barreiras que podem evitar ou reduzir seus impactos.
Ao longo de décadas realizando esse tipo de trabalho, aprendi que a qualidade da análise depende tanto da metodologia quanto da capacidade de fazer as perguntas certas, reunir conhecimento de diferentes pessoas e tornar explícitas as hipóteses e limitações das informações disponíveis.
Um risco bem identificado e descrito pode ser acompanhado, discutido e tratado com mais clareza.
A identificação não é um exercício pontual.
Ela alimenta a análise e a avaliação dos riscos e precisa acompanhar as mudanças no contexto, nos ativos, nas operações e no clima.
Na sua organização, os riscos climáticos já são analisados por meio de cenários, causas, barreiras e consequências ou ainda aparecem apenas em uma lista de temas ESG?
Estamos juntos